Hoje pode ser o meu último dia.
Sempre que acordo com este pensamento sou percorrido por uma
sensação estranha. Parece que o estômago se encolhe para dar lugar a um imenso
vazio. Um vazio tão grande que, a certa altura, parece já não caber mais dentro
de mim e que me faz sentir uma necessidade de expulsar um órgão pela garganta
para que o vazio não me incomode mais.
O coração.
Todos temos um pedido de desculpa pendente, todos temos
planos, todos temos sonhos.
Contudo, para o ser humano o infinito é sempre pouco.
No entanto, o vazio não incorpora a forma da ambição, nem da
ganância ou da prosperidade.
O vazio é o remorso do não dito.
É dizer a alguém o que sentimos apenas com uma ligeira
palmada no ombro.
O vazio não é perder a oportunidade de mudar o mundo, mas, a
de mudar a vida de alguém.
O vazio é um paradoxo e talvez por isso seja difícil de
compreender.
Se hoje fosse o meu último dia diria a alguém o quanto
gostaria de ter partilhado o meu vazio.
Talvez se partilhado ficasse menor.
Sim, menor.